Luiz Carlos FreitasLuiz Carlos Freitas é gaúcho, natural de Pelotas. Além de romancista, é contista, cronista e colunista político do jornal Diário Popular.  As suas obras primam pela intenção de intervenção social, através de personagens intensos que vivem à margem da sociedade. Com seis obras já publicadas, ele defende a ideia de que o escritor deve ser um agente de mudança. Homo Perturbatus, seu novo romance, não foge à regra e foca temas atuais e transversais à sociedade contemporânea, como o excessivo apego às novas tecnologias, o consumismo desenfreado e o materialismo, apontando causas e consequências da perda dos referenciais humanos.

O livro será lançado esta quinta-feira, em Pelotas (RS), pela Editora Selo Jovem, na Livraria Mundial (Centro), a partir das 18h. O preço de capa é R$35,00 e está também disponível para venda no site da editora.

Em entrevista ao BL, o autor revela a sua trajetória de vida, as suas maiores influências na literatura e a missão que sente no ofício de escritor.

 

Você tem origens humildes e começou a trabalhar aos 10 anos de idade. De que forma essa experiência influenciou a sua escrita e a vontade de escrever?

Eu me orgulho das minhas raízes e da minha história de vida. Sou filho do povo pobre, fui gestado intelectualmente e solidifiquei meu caráter no meio de operários, malandros, prostitutas, dependentes químicos e indigentes de todos os tipos. Neste particular, cito a eterna Cora Coralina: “O saber a gente aprende com os mestres e com os livros. A sabedoria se aprende com a  vida e com os humildes”. O fato de começar a trabalhar ainda criança me trouxe muito mais benefícios do que supostos prejuízos. Desde cedo aprendi a dizer não, conhecer as pessoas, separar o joio do trigo, observar e constatar o imenso abismo que separa os ricos dos pobres, em todos os sentidos. Este aprendizado e a experiência adquirida na dura lida da vida foram e são fundamentais no meu trabalho como autor. É lá, neste passado de pretensas dificuldades, que busco material para construir minhas obras, recheadas de personagens e histórias essencialmente paridas no ventre dos humilhados, ofendidos e explorados – o povo! Sou grato por ter sido forjado no cotidiano da dificuldade, sinto-me honrado por ser originário da periferia, onde ainda é possível encontrar a inocência, a pureza, a solidariedade entre os que pouco têm e a verdadeira face da sociedade brasileira. Estes elementos estão presentes nos meus livros. É neste manancial que sacio minha sede.

 Ainda se lembra do primeiro livro que o marcou profundamente? Qual era e que idade tinha quando o leu?

Eu já estava alfabetizado aos 6 anos de idade e desde então sempre fui leitor voraz, dos livros infantis aos antigos gibis. Mais tarde senti a necessidade de leituras mais instigantes e desafiadoras. Aos 12, 13 anos, descobri a Biblioteca Pública e comecei a ler os clássicos, sobretudo russos, franceses, brasileiros… Nesta idade, a obra que invadiu mente e espírito foi Os Miseráveis. A partir daí se solidificou em mim a certeza de que nasci com o vírus da literatura e morrerei com ele. Foi quando percebi que o meu destino estava traçado e que escrever seria a  minha sina, o caminho tortuoso mas edificante que eu percorreria durante a existência, pavimentado pelo imponderável.

 Que autores brasileiros e estrangeiros mais inspiraram e inspiram a sua obra?

Dostoiévski, Gorki, Gogol, Vítor Hugo, Zola, Flaubert. No Brasil, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Lima Barreto. Bebi na fonte destes e de outros tantos, até conquistar voz própria, lendo e escrevendo diariamente. Continuo aprendendo, todos os dias, mas me desenvencilhei de toda e qualquer influência e hoje tenho o meu próprio estilo, sem que eu desse por isso, nascido após décadas de gestação.

De que forma você acha que a literatura pode ser um instrumento de mudança na sociedade?

A literatura salva, liberta e é passaporte à liberdade plena. Entendo que ler bons livros é primordial à formação de cidadãos conscientes de seus direitos e deveres, dotados de senso crítico, capacidade de pensar por si mesmos e imunes à indução, seja qual a forma que ela se apresentar. Neste contexto,  respeitando opiniões e opções divergentes, defendo a ideia de que o escritor, como cronista de seu tempo, tem o dever de escrever obras que possam auxiliar na construção de uma sociedade mais solidária, fraterna, igualitária, tolerante e sábia. Obras com conteúdo social, mostrando as mazelas do Estado, da sociedade e as armadilhas postas no caminho da humanidade, no sentido de mantê-la aprisionada, podem dar início a uma revolução individual. Esta, com o tempo,  se transmutará em revolução coletiva, na direção da mudança dos valores e regras que sustentam a civilização ocidental, reconhecidamente ultrapassados. Para tanto, faz-se necessário autores engajados no ideal de “ajudar a mudar o mundo para melhor” e políticas públicas de incentivo à leitura, a fim de que o povo aprenda a refletir e fazer suas escolhas livremente.  Se os governantes, historicamente, titubeiam em incentivar a criação de mentes questionadoras e desafetas da manipulação, cabe à sociedade civil, incluindo autores, editores e livreiros, conceber mecanismos de transformação. É utopia, mas ouso afirmar: a cadeia literária primeiro deve privilegiar a formação de homens e mulheres letrados e livres para depois considerar o lucro.

Você é também jornalista. Se se sente mais jornalista ou escritor? E o que têm em comum essas duas linguagens?

O jornalismo é a forma que encontrei para ganhar o sustento diário. Sou um escritor que sobrevive do jornalismo. Exercer a função de jornalista trouxe inúmeros benefícios à de autor. No meu caso, as duas profissões estão entrelaçadas. Sou jornalista porque nasci escritor e se escrevo razoavelmente bem, o jornalismo foi importante neste aprendizado, aliado à leitura – muita leitura – trabalho, perseverança e suor – muito suor. Registro: as duas funções,  vitais para qualquer nação livre, hoje enfrentam séria crise de identidade. Entendo ser preciso rever o rumo que o jornalismo e a literatura estão tomando, não apenas no Brasil, mas no mundo ocidental. Ou nos rebelamos contra o senso comum, ou pereceremos todos sob a espada da mediocridade. Ambas são instrumentos que devem estar a serviço do bem comum e na defesa dos interesses da coletividade.

Homo Perturbatus é a sua sétima obra. O que vem acrescentar este livro ao seu percurso literário?

O livro é o passo definitivo na minha busca por liberdade, a chave que abriu a masmorra em que eu me sentia encarcerado. O plano de fuga da prisão teve início com o romance de formação Odeio muito tudo isso, publicado em 2009, avançou com o romance distópico MoriMundo, publicado em 2011, e culminou com Homo Perturbatus, libertando-me. Desculpe o clichê, mas esta obra é um marco na minha carreira, o início de um novo ciclo. Estou escrevendo um novo livro – Ninguém –, romance cuja essência reúne o aprendizado das minhas três últimas obras.  O rito de passagem, confesso, foi doloroso, e só foi possível concretizá-lo depois que encarei a morte nos olhos e fui refugado. Ou devolvido à vida para terminar minha missão: tentar deixar legado literário importante à posteridade.

 Como você percebe o estado atual da literatura brasileira? 

Com muita preocupação, doses robustas de pessimismo, pequenos goles de otimismo. Vejo um país de 200 milhões de habitantes com poucos leitores e órfão de instrumentos oficiais de incentivo à leitura e a autores; um país refém da programação das redes de TVs e das redes sociais; um país manietado pela ditadura da Grande Mídia e da propaganda enganosa, que não investe em educação e cultura. Por outro lado, não vejo na medida necessária o surgimento de uma nova literatura, avessa a modismos importados e gestada no útero deste imenso, diverso, rico e maravilhoso país. Sou insignificante para tanto, mas urge que a intelligentzia nacional, se é que existe, se levante do sofá e erga as bandeiras da mudança na literatura tupiniquim, sob pena de morremos à míngua, de fome intelectual e de livros – bons romances, poesias e contos – A mancheias!

Que autores contemporâneos nacionais você recomenda?

Há muitos, creio. Mas sugiro um – apenas um: Raduan Nassar. E outro, ainda desconhecido: Luiz Carlos Freitas! Se não tiverem nada melhor pra fazer…

1 COMENTÁRIO

  1. É sempre bom tratar com profissionais realmente interessados e voltados à divulgação e ao debate sobre literatura. Sinto-me honrado e gratificado pela entrevista. Vida longa e profícua ao Boletim Leituras!

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