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Fotografia de Alexandre Sant’Anna

Alice Sant’Anna nasceu em 1988 no Rio e, apesar de muito jovem, já tem um longo percurso trilhado na poesia, que descobriu aos 16 anos, tendo já afinidade com a escrita desde antes. Hoje é colaboradora da revista Serrote, publicada pelo Instituto Moreira Salles, e escreve também às sextas-feiras na página Transcultura, do jornal O Globo. A paixão por redação levou Alice a estudar jornalismo primeiro e atualmente ela cursa um mestrado em Literatura.

A sua primeira obra de poesia foi publicada em 2008, quando tinha apenas 20 anos – Dobradura, à qual se seguiram Pingue-pongue (2012) e Rabo de baleia (2013). O seu quarto livro – Pé do Ouvido – será lançado amanhã, pela Companhia das Letras, na Livraria Argumento do Leblon, às 19h. O preço de capa é R$29,90 e está disponível para venda no site da editora.

Em entrevista ao BL, a autora revela um pouco da sua relação com a poesia, das suas influências e fala da inspiração para o surgimento do novo livro.

 

Você é considerada uma das maiores revelações da poesia brasileira dos últimos tempos. Modéstia à parte, quais os motivos que você considera responsáveis por essa classificação?

Fico super honrada com a sua pergunta… Mas sinceramente não me vejo assim.

De onde surgiu esse gosto pela poesia e quantos anos tinha quando começou a escrever?

Começou aos 15 ou 16 anos, quando li Ana Cristina Cesar pela primeira vez. Mas já gostava muito de escrever antes disso, principalmente contos e crônicas. Era uma grande fã de Saramago, Clarice Lispector, Salinger, Ferreira Gullar.

E quais as maiores influências, estrangeiras e nacionais, de outros poetas no seu trabalho?

A primeira grande influência foi a música: Tom, Vinicius, Chico e Caetano. Depois veio a Ana C. e, junto com ela Chacal, Armando Freitas Filho, Paulo Henriques Britto, Sylvia Plath, Frank O’Hara, Katherine Mansfield. E finalmente os poetas da minha geração (sou uma grande fã).

O que é que “Pé do Ouvido” traz de distinto em relação às três obras anteriores?

Esse livro é diferente de tudo o que já escrevi e teve um procedimento muito específico. Não é um livro de poemas, é um poema só dividido em duas partes. A primeira, que é a mais longa, foi escrita em um mês, trinta dias contados, durante uma viagem aos Estados Unidos, no mestrado sanduíche que fiz na Universidade de Brown, no fim de 2013. A segunda parte, bem mais curta, é a volta da viagem, já no Rio. Pensei em fazer uma espécie de diário (adoro diários de viagem), mas acabei juntando tudo num poema só, sem data, e o poema ia engordando, e eu acrescentava coisas no meio, ou no começo, sem nenhuma preocupação em escrever uma coisa linear. A ideia era mostrar o tempo passando no outono, com tudo aquilo que uma transição representa, as árvores mudando de cor, uma pesquisa tomando forma. Era o período de adaptação numa cidade nova, com as vozes entrando no poema de um jeito meio aleatório, e questões japonesas surgindo, junto com as dúvidas sobre tradução e sobre tantos outros assuntos.

Você cursa um mestrado em Literatura e fez sua pesquisa na Universidade de Brown, nos Estados Unidos, sobre poesia japonesa.  De onde surgiu esse interesse, por uma realidade tão longínqua?

Surgiu quando li “Elogio da sombra”, de Junichiro Tanizaki, e fiquei completamente fascinada com aquele mundo tão diferente do nosso, que valoriza, por exemplo, o branco de uma maneira tão radical a ponto de acreditar que os banheiros não devem ser brancos, já que não são puros. É uma cultura que tem a sombra da luz natural em alta conta e que despreza a sombra da luz elétrica, por ser uma sombra artificial, falsa. Lá na Brown tive uma orientadora incrível, uma professora indiana especialista em cultura japonesa. Ela me ensinou muito sobre quimono, cerimônia do chá, haicai, tantas coisas.

Durante o tempo que esteve nos Estados Unidos, como percebeu o interesse do meio acadêmico americano pela literatura e pela poesia brasileiras?

O interesse deles é enorme! Fiquei bem surpresa, porque o departamento de estudos brasileiros e portugueses da Brown é muito forte e inclui alunos que têm, de fato, um parentesco com os dois países, mas muitos outros que aprendem português sem ter nenhum vínculo prévio com a nossa cultura. Eles acompanham os lançamentos daqui com muito interesse e foi muito bacana ver isso.

No universo literário brasileiro, quais você acha que são os maiores desafios para jovens poetas como você?

A poesia não costuma ter o destaque da prosa, não é campeã de vendas, é mais voltada para um nicho. Mas isso não é ruim. Acho que a produção está numa onda espetacular, com poetas extremamente talentosos (Marilia Garcia, Ana Martins Marques, Angelica Freitas e Fabricio Corsaletti são só alguns exemplos) que conseguem atrair a atenção, inclusive de leitores que não necessariamente tinham o hábito de ler poesia.

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