'Elevador', de Gabriel Resende Santos3

Entre o pop e o atemporal, a leveza dos temas e a densidade das observações cotidianas, são diversas as camadas do livro do autor Gabriel Resende Santos, Elevador (Ed. Patuá, 2014). O poeta de 20 anos demonstra o ecletismo cultural e literário de um jovem, mas a técnica de um autor ciente do legado alheio e disposto a recriá-lo à sua forma.

Em textos que utilizam uma estrutura mais concretista a versos mais soltos, nota-se uma identidade em formação. A divisão proposta pelo autor no livro (“terraço”, “realidade”, “fantasia”, “play”, “térreo” e “poço”) comenta de forma irônica esta necessidade de definição. Ao mesmo tempo, o autor é sólido em guiar o leitor pelas etapas, de modo que há uma evolução de pensamento e estilo. Nota-se que há um autor-editor e que cada verso e corte possue uma razão por estar lá. O ritmo é ditado, nunca acidental. Os temas, mesmo os mais juvenis à primeira vista, são desenvolvidos de forma madura e inesperada. A irregularidade é usada a favor, pois destaca os  textos mais fortes sem demérito com o restante.

O trabalho de linguagem é o destaque. O autor brinca com as expectativas ao estabelecer uma base e desconstruí-la. Os poemas “Gente iluminada” e “Tiranossauro” são exemplos. A profunda reflexão em sutis poemas de estrutura mais sóbria, vide em this must the place, aos fluxos de pensamento nervosos embalados em citações, como em “fazer o que se pode fazer”, dialogam como vertentes de uma persona poética. Embora pertencentes a um membro de um segmento sócio-cultural específico, é desnecessário conhecer as referências para compreender sua intenção. Não há escolhas óbvias, mas ao mesmo tempo existe uma acessibilidade. Santos atrai o leitor em escolhas técnicas complexas através de descrições e temas cotidianos ao universo urbano e sentimental. Assim, provoca envolvimento pelo que diz e preserva a ambição literária de querer dizer algo a mais. As palavras, mais do que seu significado, servem como pontuações sonoras que retiram o leitor da mesmice.

É um livro sobre o estado urbano, em que um universo em “deformação” só pode ser correspondido ao abraçar este caos e organizá-lo a partir de uma visão de mundo. Também é um mergulho na mente um autor inegavelmente jovem, mas com uma visão própria e capaz de expô-la de forma bem-sucedida para leitores de variadas idades e origens; Como um elevador, que não se mantém estático, mas segue uma linha reta, a estreia do autor demonstra potencial pontuado por momentos especiais.

Segue uma pequena biografia tirada do livro: “Acredita em Rimbaud e Whitman, mesmo sem assumir religião. Já apareceu em antologias e revistas como Germina, Diversos Afins e Mallamargens. Escreve no blog Occam, big bangs & outras explosões (http://hope-landic.blogspot.com).”

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