proserpina

– Me agarra pela cintura.

– Hum!

– Com mais força.

– Oof!

– Jura que não vai soltar?

Não soltei, forcei sem medida.

– Devagar, pra frouxar a musculatura.

Então retrocedi.

– Não recua.

Aprendi naquele instante que o recuo aumenta a dor. No máximo uma parada de acomodação, mantendo as mãos firmes nos ossos do quadril.

– Vem de novo.

Outro avanço, sem moderar o apetite:

– Espera…

Não pude, acabei-me nos antepastos.

– Acontece, amor.

Acontece uma ova!

– Não fica assim…

Fiquei. Recuso a esmola da benevolência.

*

Fio de navalha. Um ponto além do ponto e não segura mais. É tarefa de precisão, modulando os impulsos e esperando a coincidência dos limites.

É galope a céu aberto, indo e vindo no dorso do animal, aquele vale arqueado entre o pescoço e a garupa, tão confortável para o quadril humano, os flancos em suave curva, na justa medida das pernas. Quem pode saber se chegarão juntos?

Resulta que cada vez é uma vez. Pode dar certo como tantas, ou dar errado como hoje.

Recuso a esmola da benevolência. O consolo amplifica o fracasso.  E falo, por fim, pra salvar meu orgulho:

– Doeu?

– Doeu.

– Foi o tamanho.

– Não amor, foi o recuo.

 

 

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