foneFarei parte de uma coletânea de poemas a ser lançada em breve. O convite, o mote do livro, o longo tempo de preparação, produção e o grupo de pessoas envolvidas me lançaram em uma espiral de lembranças que gostaria de compartilhar. Isso porque, mais do que uma seleção de poesia, eu descobri no livro o registro nostálgico e fotográfico de uma época. Olhar essa metafórica foto com os amigos revelou um tempo ido, que, me parece, já poderíamos reconhecer como a era dos blogs. Todos se lembram, foi há pouco tempo atrás, um tempo já muito distante. A também chamada blogosfera proporcionou uma verdadeira explosão da escrita. Surgiram autores de todos tipos, textos dos mais variados gêneros. Para o olhar lírico dos poetas, antigos e novos, a dinâmica digital parecia finalmente dar um destaque renovado à poesia. Mais se falava sobre ela, mais ela era escrita e lida. Seu formato breve e ágil parecia perfeitamente adequado a telas de computador e barras de rolagem. E nossos telefones celulares ainda eram arcaicos poucos anos atrás.

Estávamos na primeira década do século vinte e um, a mídia especializada apontava para uma geração zero-zero, que escrevia lado a lado com uma outra geração inteira de blogueiros anônimos. Juntos, recheamos a internet de textos inéditos, escrevendo e postando com intensidade diária. Logo ficou evidente que aquilo não se tratava de meros diários digitais, como outrora se pensou, era literatura. Uma nova face da literatura, talvez. Uma espécie de literatura urgente, composta de instantâneos líricos do cotidiano.

Além da facilidade de publicação, o que também marcou época foi a construção de uma rede de pessoas, anterior ao boom das redes sociais. Seu espaço eram as caixas de comentário. As saudosas caixas de comentário dos blogs, que em nada se parecem com as atuais dos facebooks, jornais e afins. Elas conectaram poetas país afora, configurando verdadeiras trilhas pelas quais se ia passeando despretensiosamente de blog em blog, de autor em autor, atrás apenas do prazer da leitura, e da possibilidade de encontrar mais alguém que compartilhasse dessa compulsão pelos versos.

Pessoalmente, eu guardei muita preciosidade encontrada nesse garimpo virtual, e que hoje sinto praticamente extinto. Tenho a impressão de que os novos formatos e plataformas já não propiciam a mesma interação. Nos blogs, importavam os textos, as produções literárias, as obras de pretensão artística. Era através delas que as pessoas interagiam, lendo e comentando, inspirando-se até, ou mesmo descartando. Hoje é diferente. Nas novas redes sociais parece que a conexão se dá é pelas imagens das pessoas, pelos perfis fotogênicos e filtros predefinidos de estilo. E também pelos pensamentos políticos ou militâncias em que cada um se engaja. São temas importantes também, claro, mas agora o assunto é outro, os debates idem. Já não lemos os versos daqueles ou de outros amigos com tanta frequência, já não somos tão lidos por eles também, embora continuemos todos à distância de um clique. E ainda que sigamos, alguns de nós, atualizando aqueles mesmos blogs com errante persistência. As tais caixas de comentários se tornaram descampados desérticos nas páginas remanescentes dos blogspots ou wordpresses da vida. Nunca se falou tanto como na internet de hoje, mas o que mais chama atenção é um estranho silêncio que ecoa.

Dez anos atrás, porém, grupos se formaram, amizades nasceram, temas comuns foram profundamente partilhados. Em nosso caso, dessa onda de afeto e cumplicidade, fundamos o Blog de Sete Cabeças. Nele, se juntaram sete autores de diferentes cidades, idades e gêneros, e de diferentes maneiras de entender e pensar apaixonadamente a poesia. Unidos então pelo blog comum, pelas leituras e pela dedicação diária à poesia. Com o tempo, mais e mais poetas foram se somando, postando, comentando. Tornamo-nos muitos. Se hoje o ambiente digital se transformou, e os blogs infelizmente perderam a força de outrora, as amizades se mantiveram potentes. E felizmente pudemos posar juntos para uma última fotografia. Saudade e nostalgia, eternas matérias dos poemas, se encarregaram, por fim, de nos mobilizar para esse projeto de reunir o melhor desses tempos em um simpático livro amarelo e coletivo. Outros poderiam seguir o exemplo.

Sou suspeito para falar, leiam-me com reservas, claro, mas o livro está, sim, muito bonito. Belo também porque evoca aqueles tempos, e porque consegue ser um retrato fiel deles, o tal registro fotográfico de uma era. A era dos blogs de poesia. Que passou.

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Leandro Jardim
Leandro Jardim é escritor de poesia e prosa, além de compositor. Seus livros mais recentes são "Peomas" (Oito e Meio, 2014) e "Rubores" (contos, Oito e Meio, 2012). Possui contos publicados em "Para Copacabana, com amor" e "Porto do Rio - do início ao fim". Lançou, em parceria com Rafael Gryner, os EP's: "O Sonhador" e "Sementes musicais para um mundo cibernético" e realizou parcerias com Diogo Cadaval (banda Mocambo), Clara Valente e Matheus Von Kruger.

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