por Zeh Gustavo

Neste fim de ano só consigo pensar em comer, dormir, bebericar uns tiricotico, dar uma trepada e no meio disso bater uma, ops, bater perna e assim me manter improtegidamente fugidio. Como no resto do tempo? Um pouco menos. Vez-outra me adentro pelas manhas da redessoci, talvez atrás de curtir um tédio que otro, polegarzão pro cume, sempre a saudar as amizadi. Primeira observação, importanterésima (ui!): me cago en Dios pra tal economia de likes que, consciente ou inconscientemente, galerinha usa para prestigiar o que ou os que lhe darão prestígio (exclamações, redação inexistente, exclamações!!!). Tá, também dou uma selecionada básica, no sentido de boicotar, não tão sistemática ou necessariamente nessa ordem: gracejos-bocós, autoajudas reflexivas (saca?), fotos de pratos de bebês ou de comidas no colo, memes-mesmas e delicadezas de happy new year em geral.

Mas, ao que interessa nessas letrinhas tortas. Não era muito dado a amizades escreventes. Sabe como é: muita gente carente de afeto-leitor, além de carente pelo afeto-afeto num mundo esquizofrenizado de imagens em desempenho. Com o tempo, não teve muito jeito – aliás, a literatura é algo definitivamente sem jeito. Fui ganhando lá meus poucos fraternos, considerados. Alguns se tornaram bons parças de copo, de choro, de abraço. Aquilo que ia falando: somos uns carentes talvez não menos infortunados do que aqueles que postam suas tretas diárias em teclas soltas, na redessoci. Daí que: adelante, camaradinhas, não levem a mal Zeh-bebunzeiro.

Escritores, esses desempregados! Trabalhadores de outras áreas, empregados públicos, professores, jornalistas. (Jornalistas?!) Nessas passeadas voyeurísticas pela redessoci neste fim de ano noto algo importante: o mundo caiu! E caiu. E caiu. E a (des)graça disso é que dá pra comentar. O mundo cornetado parece assim muito pior. O pior dos piores. E ninguém tira férias desse projeto. Salvo se for para tirar uma selfie na praia pra falar – mal – do calor do Rio de Janeiro. E longe disso ser privilégio denosotros escribas, vá lá, hein!

Ocorre que, por exemplo, na redessoci, sem a qual ninguém mais pode ser considerado como um ser vivente no modo-agora, todo mundo tá ali para comunicar algo. Importa o quê?! Importa, desde que para o círculo estabelecido – de direita ou de esquerda, de pais babões com filhotes espertos ou solteirões-gente-boa-transada, rock ou samba, felicidade e depressão. É uma ânsia imensa de comunicar. Tá bem, mas e os escritores, e o final de ano com isso? Chego lá, ou tento.

O problema colocado é que boa parte da literatura, esta coisa feita somente por teimosia, no hoje, quer ser comunicante. E literatura nasceunão pra comunicar, embora comunique. Tampouco a linguagem tenha nascido apenas para isso de comunicar. Tio Derrida, chamado para uma palestra – ou melhor, justo uma comunicação – escreve Assinatura acontecimento contexto para, de alguma forma, espinafrar o tema da comunicação, contrariando que ela seja de fato algo assim tão alcançável, óbvio, inevitável. O que se comunica quando se escreve é algo que nunca vai se poder controlar. Ainda bem.

Mas, e que danada de ânsia de comunicar é essa? Literatura é fechamento, tá ligado? É autor querendo enrabar leitor. E leitor enrabando autor, também. É jogo, pra ser jogado. Não serve ao comunicar, para escritor bancar o jornalista frustrado em tempos que todos exercem como querem a função de jornalistas e que o próprio jornalismo profissa e efiça dá sinais de exaustão talvez até por essa profusão de seres-vasos comunicantes.

Não apelo contra a horizontalização – todos podem escrever, fazer literatura. Essa potência definitivamente não se inscreve na akadimia. Pode se desenvolver por lá, por cá, alhures, numa favela, no ônibus, no chuveiro ou em qualquer canto. Só precisa um saber que é o de verter-se em palavra, em linguagem, em prosódia próprias do jogar literário. O resto todo que se lixe – inclusive se o tal escrevinhado comunica ou o quê. Tudo secundário. O que talvez Tio Derrida tentasse explanar é que a linguagem requer mais atenção. Não é só meio quando se está por de cima dela, nas fuças da língua tentando fazer brotar um escritinho, uma literatice, quando o propósito de uma obra é se dizer, falar por e desde uma dada linguagem com que se fabrica algo. A obra primeiro se encerra em si, para abrir-se ao mundo leitor. Propor a obra para o imediato é querer rebaixá-la para o todo-sempre. E é absolutamente desnecessário fazer isso quando uma pá de gente, inclusive os próprios escritores, têm a redessoci para comunicarem o que lá precisarem comunicar de imediato. Inclusive fotinhasgourmet (o gourmet seria o novo fashion numa sociedade insatisfeita e doida para virar obesa?!).

Pois: pode nem parecer, mas aí vão meus votos de novo ano menos comunicativo e mais linguageiro, a todos, e um abraço especial aos confrades escreventes e leitores. Partiu insistência! Brincar com a língua faz bem e remoça a cabeçorra, minha gente. Até mesmo na redessoci. Bora experimentar? Inté inté.

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