Sua casa está repleta de papéis rabiscados, seu computador já avisa que a memória está cheia.

Chegou a hora de mais alguém ler o que você escreve. Professores, consultores, outros colegas de escrita, além, é claro, de todos os seus amigos, colegas e familiares, que não vão escapar a essa sina. Afinal, seu primo médico também conta as agruras do trabalho nas reuniões de família, não é? E seu cunhado advogado também ocupa seus ouvidos com os problemas dos clientes que não pagam, dos juízes que não julgam conforme suas expectativas.

Então não se acanhe. Comece pelos mais próximos e vá perdendo a vergonha. Escute as críticas com graça e humildade. Aquele seu amigo chato que implica com um adjetivo aqui, uma frase ali, está lhe fazendo um favor, pode acreditar.

As oficinas literárias são excelentes para colocar seus textos à prova. Não vale ter vergonha de um fuzilamento de críticas, voltar para casa e desistir da ideia. Isso é coisa de criança, convenhamos.

Ria de si mesmo. Ria das bobagens que você escreveu. Ria dos clichês, dos lugares comuns. Ria exatamente como um ator ri quando esquece sua fala.

Não vale tentar explicar o que você quis dizer. A frase já diz: você quis dizer, mas não conseguiu dizer corretamente. Lembre-se que seu leitor não terá a mesma condescendência, nem a oportunidade de lhe ouvir. Ele apenas fechará o livro, largará de te ler no meio da sua palpitante história, do seu poema mais profundo. Fechará o livro com a mesma indiferença que desliga a televisão. Com a diferença que o leitor não dá segunda chance, porque não acredita que a programação vá melhorar.

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Paula Cajaty
Escritora, editora, poeta e crítica literária. Nasceu no Rio de Janeiro e publicou "Afrodite in verso" e "Sexo Tempo e Poesia" em 2008 e 2010, além de participações em antologias e coletâneas. Criou o boletim Leituras em 2007 e publicou mais de 154 edições até o início de 2014, quando conheceu a Dani Fernandes.

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