Wilson Batista marcou decisivamente a história do samba na primeira metade do século XX e o final da sua vida não honrou essa importância. Na semana passada, fez 104 e 49 anos de seu nascimento e de sua morte, respectivamente (dias 3 e 7 de julho). Acredito que, como eu, muitos sambistas e amantes do gênero conheçam pouco da trajetória do malandro. Possivelmente, entoam trechos de suas melodias, imortalizadas por outras vozes, sem imaginar quem seja o autor.

A minha ignorância foi desafiada por canções como Louco, Largo da Lapa, Acertei no Milhar e a célebre polêmica de canções com Noel Rosa. Abri as páginas amarelas do meu exemplar de Wilson Batista – na corda bamba do samba e iniciei a leitura sobre o poeta e compositor.

O livro foi a primeira obra dedicada a Wilson – que começou a escrever as suas memórias em Café Nice (nunca concluído ou publicado) – data de 1996 e é da autoria do escritor e jornalista Luís Pimentel e do pesquisador e professor Luís Fernando Vieira. Não se trata de uma biografia como a que Rodrigo Alzuguir – também músico e admirador do sambista – veio a lançar em 2014. Essa será uma próxima leitura a ser aqui resenhada, mas optei por começar pelo princípio. Este é mais um perfil jornalístico alargado, fruto de uma extensa pesquisa dos autores, que fizeram também uma série de entrevistas a pessoas que foram próximas do músico. Wilson Batista – na corda bamba do samba está ainda inserido numa deliciosa coleção idealizada pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e produzida em co-edição entre o Rio Arte e a Relume-Dumará Editores – Perfis do Rio.

O livro conta a história de uma menino adolescente de uma família modesta de Campos de Goytacazes, que não encaixava em nenhuma profissão formal e que vivia fugindo da escola. Criado pelo pai, João Batista, e pela tia Rosinha, o jovem Wilson ainda tentou o ofício de marceneiro, em vão. Algum tempo depois, se mudaria para o Rio de Janeiro, para fazer aquilo que sabia melhor – compor, namorar e frequentar a boemia da Lapa e do centro da Cidade Maravilhosa. Fiquei a saber que, embora muito respeitado pelas figuras mais conhecidas do bairro – Madame Satã, Jorge Goulart, Miguelzinho Camisa Preta, Ataulfo Alves, etc – alguns bons de navalha e capoeira, não há registro de que o nosso compositor se envolvesse em episódios muito violentos, como era comum entre malandros da época. As suas artimanhas eram mais direcionadas (o clichê!) às mulheres, por quem se apaixonava, com a mesma velocidade com que as substituía por nova paixão. Casou algumas vezes e teve que administrar, não muito bem, a coincidência de relacionamentos. Porém, o coração do jovem Wilson era generoso e, assim que começou a ganhar dinheiro com sua música, trouxe a família que deixara em Campos para morar com ele na Lapa.

Flamenguista doente, para Wilson tudo foi motivo ou inspiração para mais uma canção – como o time de seu coração – e foram numerosas e brilhantes as parcerias que fez ao longo da vida, contando nomes de peso como Orestes Barbosa, Geraldo Pereira e Ataulfo Alves. Fez enorme sucesso cantando ao lado de Erasmo Silva, com quem formou a dupla Verde e Amarelo, que se apresentou em várias cidades pelo Brasil e pela Argentina. Wilson terá mesmo feito uma viagem para a Europa, onde se inspirou para criar Dolores Sierra e onde ficou sem um centavo no bolso, tendo que pedir auxílio à Embaixada do Brasil, em Paris, onde conheceu Vinicius de Moraes, que assumiu desejar uma parceria com ele.

Esta e outras histórias aparecem no perfil do compositor de forma célere, devido à natureza do trabalho reduzido, mas dão uma dimensão real do que foi a vida e obra de Wilson Batista, que morreu na penúria na década de sessenta por nunca ter tido uma boa relação com trabalho formal e o dinheiro. A música era seu ganha-pão e viveu quase exclusivamente de direitos autorais e favores de amigos.

Hoje ele continua entre os compositores de samba e música popular que maior legado nos deixaram. Wilson Batista – na corda bamba do samba traz ainda, no final de suas páginas, um conjunto de canções inéditas, verbetes escritos pelo próprio sobre outros grandes nomes da música brasileira – seus contemporâneos, e toda a sua Discografia/Musicografia. Que livros como este e o de Rodrigo Alzuguir não deixem o grande Wilson cair no esquecimento dos brasileiros e da MPB. Que pesquisadores continuem se debruçando incansavelmente sobre sua vida e obra!

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