Crítica: ‘Um homem burro morreu’, de Rafael Sperling

0
291

image

Por Marco Aurélio

A experiência do riso nas artes de Rafael Sperling 

Um homem burro morreu (Ed. Oito e Meio, 2014), de Rafael Sperling, não é, definitivamente, um livro para qualquer um. Um homem burro, inclusive, se o lê, é bem capaz de morrer uma morte bem idiota – daquelas que a gente mal consegue lamentar – por influência de algum dos seus 27 contos, ou da tentativa frustrada de compreensão destes. E, provavelmente, nesta hipótese macabra, os familiares mais estúpidos do homem burro falecido atribuíssem, aliás, alguma culpa pelo óbito ao escritor carioca, autor de outro volume de contos chamado Festa na Usina Nuclear (Ed. Oito e Meio, 2011).

Explico: é que, com toda a sua brutalidade (ora surreal, ora nonsense, ora apenas satírica), o volume de contos de Sperling carece de um leitor que, acima de tudo, possua senso de humor. E que fique claro: não me refiro aos que gozam na própria cara com tirinhas políticas de quinto escalão no jornal de domingo. Senso de humor, mesmo. Aquele lance que te faz nivelar tudo, absolutamente tudo, pelo mais baixo, na rabeira da realidade, e gargalhar da tolice humana, sem medo de ser taxado disso ou daquilo. Humor verdadeiro, daqueles que não podem, nunca, ser contra ou a favor de qualquer bandeira, pois fazem piada com ambas as escolhas e, como se não bastasse, com aqueles que não fizeram escolha nenhuma. Coisa de gente grande. Aquela qualidade que podemos encontrar, por exemplo, nas crianças de South Park, ou num camarada do quilate do saudoso Fausto Fanti e seu Hermes e Renato. Portanto, se o teu negócio é patrulhar a mensagem do autor, o seu fundilho ideológico, já pode ir tirando o cavalinho da chuva e procurando algum escritor mais “sério”, desses que se encontram aos montes, em série ou penca, nos bancos de qualquer academia de letras municipal. Que Jesus Cristo espancando Hitler, convenhamos, é cena conformada pelos colhões de quem não quer e nem merece dar qualquer explicação do acontecido.

Isso não quer dizer, também, que o contista não erre. Erra sim, e muito. Afinal, fazer humor é das tarefas mais difíceis e, no seu exercício, o deslize é quase inevitável. Acaba-se sempre por flertar com toda sorte de exagero, o que, por vezes, ultrapassando um milímetro do limite, pode murchar o riso e secar a fonte da pilhéria. É o caso do conto Uma xícara de chá, que ecoa (intencionalmente ou não) as distorções espaço-temporais e a desproporção elementar de Manoel Carlos Karam, indo tão longe na plasticidade nonsense a ponto de, como efeito, acabar amenizando o interesse da leitura, mediante um clima de gratuidade completa, ao invés de provocar ou minar a racionalidade de uma literatura pretensamente realista. Noutro sentido, quando realiza uma narrativa mais “convencional”, em O poeta das coisas horríveis, o autor acerta a mão em cheio e nos dá uma divertidíssima visão sobre o modo como a poesia, com toda a sua aura de arte elevada, pode descer ao nível do chão na consciência masturbatória de um jovem ansioso por sexo.

Mas se falo em narrativa convencional ou realista, devo confessar, entretanto, que guardo uma desconfiança de que tal formato de análise, que fala em mimese e verossimilhança, o palavrório todo dos estudos literários, encaixa-se apenas porcamente ao conteúdo do livro do contista carioca – o que bem pode ser visto, é evidente, como preguiça crítica, moléstia de que este cronista (e não Sperling) assume sofrer. Ademais, na defesa dos pontos baixos do livro, ressalte-se que rir o tempo todo seria tão absurdo e perturbador quanto uma criança de seis meses sonhando que sua mãe defeca em seu rosto, como numa das hilariantes passagens de Sonhos de Gleretribo.

Como se vê, a literatura de Sperling não é para os fracos. E se, assim como os bebês, histórias infantis lhe soam como qualquer coisa mais ou menos sacra, você precisa ver, ou melhor, você precisa fugir da releitura da Branca de Neve e os Sete Anões cometida pelo autor em A Branca de Neve era um tanto bonita. Reitero, pois, que o leitor se aproxime do livro apenas se estiver aberto ao nivelamento por baixo (e grotesco, demasiado grotesco) do real. Assim, os altos e baixos do livro podem ser vistos como medidas cautelares, afim de que ninguém engate numa gargalhada contínua, perdendo a própria noção do que é engraçado ou não, ingressando num tipo de apatia geral ou idiotia intolerável, como a do homem burro que morreu tentando ligar sua torradeira (e não lendo o livro de Rafael Sperling) no conto que empresta título ao livro.

Encerro esta breve impressão de leitura com uma provocação/afirmação: precisamos, os leitores brasileiros, de mais e mais escritores que se constroem assim, fazendo arte, no sentido coloquial da palavra. É que, constrangidos pela fama de carnavalescos, nós, os brasileiros, ao fazer literatura, parece que nos amedrontamos com a possibilidade de sermos levados na brincadeira pelos pares, esquecendo que o riso é manifestação tão ou mais catártica quanto o desnorteio existencial. Ao transbordar irreverência numa área como essa, portanto, o mais das vezes tão sisuda e sem graça, com pompas de fechadura para o mistério da existência, Rafael Sperling acaba exigindo uma linguagem alternativa para valorar o seu trabalho, a que não é a das resenhas brochadas, tampouco a dos acadêmicos pedantes. E, no mais, quem sabe se algum leitor criativo, depois de ler Um homem burro morreu, não se anima a escrever um Manual Básico para ler literatura porra-louca? De certo, apenas que o livro de Sperling nos relembra um papel indispensável da literatura: como qualquer outra linguagem, pode e deve ser um caminho para a Graça – com inicial maiúscula ou não, mas, em ambos os casos, mantendo sempre o senso de humor.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here