Por Paula Cajaty

A poesia que sopra no vento

José Fernando Guedes é um dos que escuta o que o vento diz, essas palavras sopradas apenas para quem é capaz de catar conchas nas areias do tempo.

Se o vento diz (Imprimatur, 2016), seu livro de estreia, é sua resposta aos sussurros que ouve desde o amanhecer até o sono mais profundo, ou quando se senta ao lado da areia para contemplar o choro do mar.

Todo livro é uma prece, uma conversa com o indizível, com tudo aquilo que está além do alcance e é nesse momento que José mostra-se um exímio ouvinte dos movimentos das folhagens, dos vaga-lumes que explodem em labaredas, do suspiro dos cães.

Nos pássaros que dão asas à sua poesia estão o desamparo, a fragilidade, e ao mesmo tempo a audácia, a absoluta liberdade. Nas pessoas que sobrevoam suas memórias, estão presentes a saudade, a solidão, assim como a descoberta e a ressignificação.

Afinal, o vento não vive sem a distância, sem o vazio – ele só pode soprar se lhe dermos espaço. O vento do poeta, assim, nas distâncias do espaço e do tempo – de si mesmo e dos outros – é capaz de surpreender, de emocionar, de compreender e abençoar.

José é neurocirurgião, entende de bisturis e já viu de perto o que existe de verdade dentro da cabeça dos homens. Porém, o poeta não nos fala de carne e sangue: o livro de José conta de divindades, de um vento que nos comanda (que nos diz vai, e a gente vai), desse sopro divino que cria, ilumina, inspira e expira, e espalha vida por onde canta.

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