Peomas capa frente oito e meio
Todo livro é um jogo. Com desafios, vivências, risos e profundezas. Mais do que falar do autor, eles falam de uma época, um tempo e espaço que repercute no autor e, em ondas sucessivas, em todos os que compartilham a mesma dimensão.’Peomas’, de Leandro Jardim, já se apresenta como jogo desde o título, em que flerta com o vernáculo, com as letras e formas com a desenvoltura e sabedoria de quem já incorporou o ofício.

Se em ‘Todas as vozes cantam’ Leandro ainda investigava a musicalidade presente no ritmo poético, e se em um segundo livro ele enveredava pela delícia de garimpar cânones, em ‘Peomas’ Leandro divorcia-se de todo preconceito, de toda timidez ou amarra, e altivo se lança mais uma vez ao ofício de esculpir versos, burilar palavras.Seu apelo, porém, não é tanto sensual, provocante ou possessivo, muito embora haja sempre algo de voluptuoso em todo jogo, ainda que de palavras. A beleza da poesia de Leandro está na simplicidade, em uma certa inocência outrora comum à bossa-nova, à beleza antiga da figura do galanteador.

A poesia de Leandro é exatamente feita disso, de galanteios, daquela ironia brejeira, barroca e tão carioca, há muito perdida. Talvez seja, sim, a música, o choro, o samba de raiz, a bossa-nova, aquele remanso de Noel, “em meio à intensidade da vida / tantas vezes dura / a vontade de sorrir”.

Talvez seja mesmo o poeta, que em suas rimas sutis, diverte-se com a alegria simples de quem rearranja blocos de madeira – “são boas as ruínas / nos dão certezas / também evanescentes” – e com a generosidade de quem constrói castelos de areia na linha das marés. Coisa mesmo de quem encontra beleza nas superfícies e, nesse borboletear de palavras que o sobrevoam assim tão docemente, não é capaz de se aborrecer com a fugacidade dos momentos mais raros.

Não, felizmente ninguém o censura, e nem poderia. Afinal “uh, baby, baby, it`s a wild world”. Os Peomas de Leandro são assim, desmontados e remontados novamente, refletindo com exatidão essa característica e capacidade só nossa, essa beleza de podermos rearrumar e reescrever tudo aquilo que não nos serve. Criar novas realidades a partir do verbo. Talvez, mais do que nunca, estejamos precisando desesperadamente disso. De verdade, os ‘peomas’ de Leandro não poderiam estar escritos de nenhuma outra forma.

Peomas
Leandro Jardim
Oito e Meio, 2014
78 pg.

Compartilhar
Artigo anteriorCrônica: ‘Chagas’, de Anchieta Rocha
Próximo artigoCOART oferece oficinas de criação artística
Paula Cajaty
Escritora, editora, poeta e crítica literária. Nasceu no Rio de Janeiro e publicou "Afrodite in verso" e "Sexo Tempo e Poesia" em 2008 e 2010, além de participações em antologias e coletâneas. Criou o boletim Leituras em 2007 e publicou mais de 154 edições até o início de 2014, quando conheceu a Dani Fernandes.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here