Cheguei ao final da leitura de Os Arcanjos (Editora Jaguatirica, 2017) com o espírito preenchido de cores novas e transformada pela delicadeza, maestria e profundidade com que as palavras de Marcelo Moraes Caetano, o autor, me guiaram. Saiba o leitor que não está diante de um livro vulgar – e não imponho sentido depreciativo a este termo. Saiba igualmente que não está perante uma obra de eloquência indecifrável – e olhe que com essas eu tenho uma relação difícil. É apenas e tanto – como o narrador e protagonista da estória nos introduz – sobre o Amor. Não, não é clichê, já adianto. Por que seria o Amor sempre tratado como tema clichê, se é infinitamente desdobrável e compartilhado em tantas formas de arte, levando o sujeito a redescobri-lo com diferentes interpretações, há milhares de anos? Creio que essa experiência se tenha dado comigo, mais uma vez.

Tive o privilégio de estar presente no evento de lançamento do livro, com direito a palestra memorável do escritor e professor Gustavo Bernardo Krause, que na orelha da publicação também deixou a sua marca: ‘o romance Os Arcanjos, de Marcelo Caetano, é espetacular – ponto.’ Se eu não concordasse com esta primeira afirmação do professor universitário, não a reescreveria, até porque saí de lá fortemente seduzida pela ideia de ler o livro e ao mesmo tempo desconfiada. E concordo mesmo. Se hoje não estivéssemos tão envenenados por motivações capitalistas, eu diria que o livro poderia tornar-se um clássico da literatura brasileira contemporânea, como foram outrora as obras de José de Alencar ou Machado de Assis. Ainda voltando ao evento de lançamento, o autor disse a certa altura a quem estava presente que não teve intenção alguma ao escrever a obra. Nem mesmo a de publicá-la. Que também não dava importância ao destino que tivesse. Talvez tenha sido essa falta de pretensão que fez de Os Arcanjos, a meu ver, um livro tão bom.

Trato aqui de um romance cuja linha narrativa não é seu ponto forte. Os leitores que gostam de viajar pelo concreto das estórias talvez se enfadem com a linguagem poética e em tantos momentos filosófica que Marcelo Moraes Caetano lhe emprega. Sob o meu ponto de vista, é aqui que ele ganha (tantos!) pontos. Se o contexto de seus personagens é contemporâneo, o autor revela-o à luz das profundezas de uma ancestralidade necessária. É o regresso ao início, que toca no infinito – um recorte íntimo e denso da soma de universos particulares que poderiam ser os nossos. (Não sei se me fiz entender, mas creio estar influenciada por essa falta de concreto nas palavras – e que elas soem livres e superficiais, como as da Velha Totonha, personagem inequecível.) Pode ser, na verdade, um convite à reflexão sobre o nosso universo particular e o momento de cruzamento dele com outros, através de uma delicadeza tocante na exploração dos personagens masculinos. E dos femininos também. Sendo que o (convencionalmente assim chamado) masculino vira (convencionalmente assim chamado) feminino e vice-versa. Só sei que me senti de mãos dadas com o narrador, Gabriel, em cada abismo real para onde a Vida nos empurra – a nós dois, eu e ele.

Se o leitor passear pelos corredores de uma livraria, Os Arcanjos não é um título que o vá deixar esclarecido sobre o interior de suas páginas. Talvez a capa também o induza a interpretar a obra de forma coerentemente precipitada. É possível que por ambas as razões não se interesse pela leitura do livro e também é possível que por elas se seduza imediatamente. Só sei que precisa chegar ao final para entender as escolhas. É pura poesia, meus amigos. Repito, é também parte da nobre Filosofia. E as duas coisas não são intimamente ligadas? Gabriel, Vicente, a Velha Totonha, Dora, Dalva, Eugênio, Maçananga, Santa Marta, Jeanne, Købke – sons que confluem no mesmo sentido e me remetem a esse significado, que é sentimento, início, infinito, criador – o Amor. Se fecharmos os olhos e olharmos menos, entendemos que é muito mais que um clichê. É disso que trata Os Arcanjos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here