Este é um romance que, escrito através de uma linguagem despretensiosa, se lê com leveza e rapidez, bombeada pela curiosidade de se chegar a um final inesperado para seus personagens-tipo. Arrisco-me a dizer que se trata de uma crônica de costumes, ao mesmo tempo que se assume como narrativa de traços novelescos estrategicamente previsíveis, na forma.

Não pretendo aqui explorar detalhes da história, tendo em conta a possibilidade de estragar o prazer da surpresa aos futuros leitores da obra. Detenho-me sobre pormenores das entrelinhas que, a meu ver, merecem relevo. Li na contra-capa do livro, em texto do escritor Anderson Fonseca, que ‘os romances de Marczak são portas para o universo feminino, aparentemente desconhecível (…)’. Esta é a primeira obra da autora que leio, mas tendo a discordar da afirmação. O Mundo Perfeito (Editora Penalux) me parece mais uma porta para o universo dos tantos vícios inquestionáveis em que está submersa a sociedade brasileira. Sob o ponto de vista de uma protagonista e narradora mulher, de classe alta, residente em um cenário anônimo de qualquer cidade do sudeste ou sul do país, o leitor talvez reconheça o embate ou coincidência entre duas culturas que lhe são tão familiares: a do machismo, que coloca qualquer mulher, independente ou não, rica ou pobre, subjugada ao seu papel de gênero feminino, de segundo sexo, com pensamentos e comportamentos programados, e a do classismo estrutural, ligado a um preconceito racial profundamente enraizado e também a um princípio de privilégio simbólico de diferenciação regional.

Luísa, a protagonista, uma mulher branca, bela, rica, presa no seu mundo prefeito de um tédio consciente, estabelece uma relação de poder clara para com um universo que lhe é externo e aparentemente inferior – o dos seus funcionários, pobres, subalternos, nordestinos. Mas ela é mulher. Uma mulher que não se permite a profundas reflexões que abanem a zona de conforto em que está ancorada a sua vida, que corresponde à expectativa social do papel que lhe cabe e que a faz ter a certeza de estar acima dos outros. Viajando pelos pensamentos mais íntimos do personagem, entendemos com clareza a profunda angústia que nasce da falta de harmonia entre desejos inesperados e ironicamente indesejáveis e aquilo que é suposto ser. E diante de um homem de classe popular que a serve, ela não passa de uma mulher – a mulher do patrão. Quando descontextualizada a relação de poder, num surto diante da lógica que rege a sua vida, ela se vê subjugada na sua condição social feminina, ao mesmo tempo que experimenta um sopro de liberdade e aventura num universo distante do seu.

Severino, o peão de obra humilde, nordestino e pouco instruído, que trabalha na sua casa, não olha Luísa como ela mesma se enxerga. A mulher de Eduardo, empresário de sucesso e seu patrão, é uma mulher rica, com poder e dinheiro, mas ele, pobre e serviçal, é cabra-macho, de braços fortes para o seu ofício. A sua esposa, Zefinha, é uma mulher gorda, feia e pobre aos olhos de Luísa que, bonita e rica, precisava ter mais carnes para o gosto de cabra-macho de Severino. A protagonista, nas suas viagens mais íntimas, reconhece o desdém pelos filhos com o homem rico e perfeito, Eduardo, e admira as crianças desfavorecidas do casal de funcionários. No fundo, admite aquilo que é inadmissível para qualquer mulher: não escolheu ser mãe e não tem sentimentos instintivos de amor e admiração pelas suas crias.

Este livro é um retrato novelesco do Brasil, suas gentes e as relações que se estabelecem atrás da cortina da hipocrisia que nos é tão familiar e nos aprisiona a todos.

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