O Choro: Reminiscências dos Chorões Antigos é uma viagem envolvente pelo universo de origem daquele que é considerado o primeiro gênero musical brasileiro, por excelência. Escrito e publicado pela primeira vez em 1936, o livro mereceu nova edição, revisada em 2014, com fotografias e ilustrações da época, pela gravadora e editora Acari records – também ela edicada ao choro. Esta é uma obra obrigatória para pesquisadores, músicos e amantes do gênero, porque registrou nomes e histórias que teriam caído no esquecimento, não fossem os esforços literários do autor, um humilde carteiro e músico amador (violão e cavaquinho) – Alexandre Gonçaves Pinto, apelidado de Animal – que, à época da publicação, já se encontrava em idade mais avançada e, portanto, se auto-considerava um chorão antigo.

Quem se propor a ler a obra, precisa de uma dose considerável de paixão à música (em especial ao choro e seus subgêneros), outra de nostalgia e ainda umas pitadas de carinho e paciência com a escrita docemente pretensiosa do autor. Trata-se de um livro de memórias, na primeira pessoa, organizadas em inúmeros verbetes, cuja leitura periga em tornar-se exaustiva. Alexandre Gonçalves Pinto não teve qualquer intenção de objetividade ou imparcialidade acadêmicas e não poupou palavras (tantas vezes repetidas) para homenagear e elogiar os protagonistas de uma época efervescente da música popular brasileira, quando a indústria fonográfica dava ainda os primeiros passos e não foi a tempo de registrar uma vasta obra de compositores desconhecidos do séc. XIX e início do séc. XX. Estes hérois, como lhes chama, eram maioritariamente trabalhadores humildes como ele – carteiros, operários, funcionários dos telégrafos, da Imprensa Nacional, ferroviários, etc – que dedicavam o seu tempo livre à farra e à música. Muitos deles, amigos e companheiros do autor, são descritos com palavras emocionadas, que nos transportam para uma dimensão íntima de sua realidade e nos fazem reviver a História e as histórias do choro, através de um olhar privilegiado.

Confesso que esperava revelações mais obscuras desse universo de boemia musical descrito na obra – esse imaginário de prostituição e marginalidade da música popular do Rio, muito associado ao surgimento do choro e do samba, até hoje romantizado. No entanto, não sei se por pudor, conservadorismo, ética ou se por corresponder, de fato, à verdade, Alexandre Gonçalves Pinto dá apenas conta de um grupo de músicos profissionais e amadores, que eram também exemplares chefes de família e amigos de finíssimo trato, além de trabalhadores dedicados – com as devidas excepções daqueles que eram afastados do emprego, por se perderem pelo choro, bem como aqueles que eram capoeiras.

A escrita do Animal usa e abusa de artifícios esforçados, para legitimar a intenção de tornar os chorões da época imortais através da literatura. Adjetivos pomposos e bordões linguísticos são repetidos para elogiar cada um de seus companheiros, o que deixa a leitura tão envolvente, quanto densa. Ainda assim, a nova edição da Acari records poupa-nos de erros ortográficos assumidos pelo próprio autor no epílogo, além de uma grafia desatualizada da língua portuguesa.

A forma enciclopédica com que está organizado o livro não obedece a nenhuma outra regra que não a da pena espontânea de Alexandre Gonçalves Pinto. Os verbetes não seguem nenhuma ordem específica e é interessante constatar que personagens que ficaram famosos na história da música popular brasileira, como Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e até mesmo Villa-Lobos, mereceram menor destaque no livro do que tantos outros praticamente anônimos – até aqueles que eram lembrados por tocar mal. Essa característica revela, precisamente, que o objetivo do autor foi cumprido – imortalizar nomes e composições que, de outra forma, nunca seriam lembrados hoje. Alguns desses verbetes se desdobram em memórias interligadas – de pessoas, episódios, saraus, festas e lugares – o que confere uma visita guiada pelos principais palcos do choro da belle époque carioca e do início do séc. XX.

Gírias e expressões informais que se usavam entre os chorões são empregues ao longo da narrativa e devidamente contextualizadas em notas das editoras, que facilitam a compreensão do texto e acrescentam informação de arquivos históricos – como datas de nascimento e de morte dos músicos, bem como outros dados biográficos relevantes e descobertos mais recentemente. Também os hábitos de gastronomia popular da época são descritos com a precisão suficiente para deixar o leitor de água na boca.

Os créditos do resgate da obra vão para a pesquisadora Anna Paes, que fez os comentários e a pesquisa iconográfica, e para a jornalista Nana Vaz de Castro, responsável pela edição e atualização do texto. Ironicamente, duas mulheres do início do séc. XXI que se debruçaram sobre um universo distante e quase exclusivamente masculino. Apesar de não estabelecer nenhuma diferenciação sexista, as memórias do Animal são fiéis à realidade cultural da época e quase todas são dedicadas a músicos do sexo masculino – as mulheres que se permetiam penetrar o meio boêmio do choro eram raras, como Chiquinha Gonzaga ou algumas cantoras da rádio, contemporâneas à data de publicação do livro. Os restantes e raros verbetes dedicados a personagens femininas ou que fazem referência a elas, elogiam as esposas dos anfitriões das festas, ou mulheres negras e humildes, amantes da música, que recebiam os chorões em suas casas para uma boa farra, regada a cachaça e comida farta.

A nova edição do livro traz ainda um artigo de luxo, para embalar devidamente a leitura e nos transportar ao universo musical do Rio de Janeiro do séc. XIX e início do séc. XX – um CD com gravações contemporâneas de músicas citadas no livro, executadas por importantes artistas que revalorizam o choro nos dias atuais, como Mauricio Carrilho (violão de 7 cordas), Luciana Rabello (cavaquinho) ou Jorginho do Pandeiro (pandeiro).

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here