A história do Jazz exerce um fascínio particular sobre mim, tanto quanto a época que atravessa o final do século XIX e o início do século XX. À semelhança de gêneros que me são simbolicamente mais familiares, como o Fado, o Choro e o Samba, o Jazz parece ter uma trajetória social paralela, no universo cultural norte-americano, de berço desfavorecido para música que hoje é associada ao consumo intelectual das elites do mundo inteiro. Pude confirmar essas impressões e aprender um tanto mais quando decidi ler a obra do pesquisador, músico e jornalista francês François Billard (o original é La vie quotidienne des jazzmen américains jusqu’aux annés 50), traduzida para o português brasileiro e publicada pela Companhia das Letras em 1990, na coleção Círculo do Livro. Shame on me! Mas foi a minha primeira experiência na bibliografia sobre o gênero. E saiba o leitor que devo ao Jazz o meu verdadeiro amadurecimento musical, a partir dos quinze ou dezasseis anos de idade.

No Mundo do Jazz conduz-nos pelas estreitas ruas que compõem um mapa cronológico cheio de pequenas encruzilhadas adormecidas na História. Não se trata apenas de uma obra sobre música, pois ela também cobre importantes dimensões da realidade sócio-cultural norte-americana da primeira metade do século XX. As relações sociais entre negros e brancos na formação do gênero musical e da sociedade do país em geral têm o holofote sobre si, mas, principalmente, o privilégio dos músicos brancos – cuja grande maioria admirava profundamente os colegas negros, como foi o caso do famoso maestro e clarinetista Benny Goodman, que prescreveu sempre a valorização dos músicos de cor (tradução no livro para a expressão de língua inglesa colored).

O livro apresenta-nos, logo de início, o Ragtime, antecessor do Jazz, ritmo dançante que contagiou os Estados Unidos no final do século XIX – o primeiro gênero musical considerado exclusivamente norte-americano, tal como o Choro antecede o Samba como primeiro gênero excusivamente brasileiro. Descobri que a palavra Jazz era quase proibida no início do século, por ser associada, por brancos e negros, ao erotismo pecaminoso dos últimos. O vocábulo popularizou-se com o lançamento do primeiro disco da Original Dixieland Jass Band, sucesso comercial que divulgou um novo estilo oriundo de Nova Orleães, no estado sulista do Luisiana, em outras grandes metrópoles do país, nomeadamente Chicago e Nova Iorque, para onde emigraram muitos negros do sul.

Através de uma extensa pesquisa, o autor mostra-nos como New Orleans tinha o ambiente perfeito para acolher o protagonista da obra. Historicamente, a cidade portuária desenvolveu-se virada para a atividade mercantil ao sul, mais para o Caribe do que para o norte do país, de clima subtropical e onde se praticava um culto ao prazer que não existia em estados marcados pelo protestantismo – a principal religião ali era a católica. À semelhança dos primos português e brasileiro (sou eu que gosto de lhes chamar assim) – o Fado, o Choro e o Samba – o Jazz também se configura num contexto de marginalidade boêmia, ligado à prostituição, às drogas e à violência.

Durante o período da Lei Seca nos Estados Unidos, com destaque para o cenário da cidade de Chicago, o Jazz ficou fortemente associado ao universo do submundo dos gangsters e seus revólveres, período em que simultaneamente se desenvolvem as Big Bands compostas principalmente por músicos negros que chegavam do sul, e que se apresentavam em teatros e festas dançantes. Com a crise de 29 e a chegada da Segunda Grande Guerra, ele passa por sua primeira crise, mas dá a volta por cima com o Swing – preconizado por Benny Goodman e sua banda – e com o BeBop – vertente que privilegia os pequenos conjuntos e que teve no saxofonista Charlie Parker um dos seus principais fundadores.

O autor explora ainda a precaridade das condições de trabalho a que eram sujeitos, pelos empresários, a maioria dos músicos de Jazz, principalmente quando ficavam meses em viagem para shows em diferentes estados, citando depoimentos de alguns que ficaram famosos, como a cantora Billie Holiday. E por falar em Billie Holiday, François Billard não deixa de dedicar algumas páginas para descrever o machismo que atingia as poucas mulheres, principalmente instrumentistas, que se aventuravam no estilo musical, como a pianista Mary Lou Williams.

A repressão racial a que foram sujeitos, direta e indiretamente, os protagonistas desta história – os jazzmen negros oriundos das classes populares – faz parte do background do que podemos considerar a História do Jazz explorada no livro, com destaque para as dificuldades de adaptação às grandes metrópoles do norte e nordeste do país, por parte daqueles que chegavam do sul. O Jazz demorou a ser apropriado pelas elites brancas como forma intelectual de arte e os próprios músicos enxergavam-se mais como executores de um ofício, que precisavam sobreviver, do que como artistas e criadores – apesar de se tratar do gênero do improviso, por excelência.

Ao longo da sua vida, como faz notar François Billard, o estilo musical sofreu a dificuldade de não ser considerado música clássica erudita, nem música comercial ditada pelas modas e caprichos da cultura de massas. Ficou situado num limbo, às vezes problemático, que o obrigou a desdobrar-se em diferentes correntes, já na segunda metade do século XX, como o cool jazz, o funk, o jazz rock ou o free jazz. 

Senti falta de um aprofundamento teórico maior da relação com o Blues, que surge brevemente retratado como gênero irmão, associado ao sofrimento e à miséria dos negros nos espaços rurais do Delta do Rio Mississipi, também no sul – comparado ao Jazz, que seria a música dos grandes centros urbanos e do presente.

Resumindo a ladainha, se gosta de Jazz, esta obra leva também a conhecer algo do universo mais íntimo e da trajetória de ídolos como Louis Armstrong, Duke Ellington, Charlie Parker, Jelly Roll Morton, Count Basie, Billie Holiday, Lester Young ou Dizzy Gillespie. Go ahead!

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