capa_historia-do-fadoLer História do Fado do autor José Pinto Ribeiro de Carvalho (Tinop), originalmente publicado em 1903 pela Empresa da História de Portugal, Sociedade Editora, Lisboa, não é apenas uma viagem pelas estórias e aventuras que compõem a formação do género musical que mais representa Portugal no mundo. Esta é uma leitura obrigatória para estudiosos e curiosos das práticas musicais mundo afora, ou que apenas se interessem pela cultura popular portuguesa. Não obstante, é uma forma de análise despretensiosa de uma origem comum entre o fado e outros géneros musicais de raiz popular, que hoje são elevados a símbolos nacionais nos respetivos países – como é o exemplo do samba, aqui no Brasil, do tango argentino ou do flamenco em Espanha.

Não fosse a re-edição da editora portuguesa Dom Quixote em 1982 e em 2003, talvez esta obra ficasse esquecida no tempo, bem como o autor que se doou a uma extensa pesquisa àquela que já era considerada, no início do século passado, a Canção de Portugal. História do Fado é relançado na coleção Portugal de Perto, uma série de livros dedicados ao vasto campo da Etnografia e da Antropologia, em especial a temas sobre a cultura popular portuguesa. Como boa imigrante que sou aqui no Brasil, consegui o meu exemplar numa pesquisa pessoal sobre bibliografia do fado no Estante Virtual, o conhecido site de venda de sebos (ou alfarrabistas, para os leitores lusos) online. A edição de 1982, é claro. Pelo que pude entender, da original ainda se podem encontrar alguns exemplares mais raros, só em Portugal. Mas falemos do interior amarelado das suas páginas, que me transportaram para outras épocas e histórias, onde o timbre dolente de uma guitarra (a portuguesa, atenção!) sempre acompanhou o canto mágico que inevitavelmente pertence às minhas memórias afetivas musicais mais remotas.

Pinto de Carvalho não procura dar uma resposta ideológica às perguntas que até hoje não encontraram respostas no concretismo acadêmico. Afinal, de onde surge o fado? Houve quem defendesse que sua primeira origem estava no canto dos marinheiros, inspirado pela ondulação melancólica do mar. Outros admitem que ela possa ser brasileira, africana e até árabe. São todas suposições legítimas (e o autor explica as razões), mas carecem de documentos históricos para que se assumam como verdade. Acredito que o leitor deste texto se interesse por saber que, sim, a história do fado tem um paralelismo curioso com a história do choro (durante o século XIX) e do samba (ao longo do século XX). Esta é uma informação que pude comprovar com a leitura do texto de Tinop. A modinha – género musical filho das modas europeias, que nasce aqui no Brasil, e o lundum ou lundu – ritmo africano trazido pelos escravos para cá, estão ambos entre as origens e influências musicais na consolidação do fado, tal como estão na origem dos primos brasileiros – o choro e o samba, além de que todos eles nascem como géneros associados a um contexto de marginalidade urbana na segunda metade do século XIX e no início do século XX.

Aliás, essa é a questão central analisada por Pinto de Carvalho: as condições sociais para a reprodução e transformação do fado em alguns bairros de Lisboa na segunda metade do século retrasado. Desde a descrição dos trajes tipicamente usados pelos fadistas, a inúmeras letras de canções populares e motes de canções da época, cujo registro documental possivelmente ter-se-ia perdido até aos nossos dias, o autor mergulha-nos num universo de pormenores que só uma pesquisa aprofundada consegue. Nomes de personagens importantes que deram o seu contributo para a formação do fado são também minuciosamente enumerados e descritos – cantores, cantoras (ou cantadores e cantadoras, nas palavras do autor), guitarristas, fidalgos amadores da canção popular e de suas intérpretes (como o célebre caso entre a cantora Severa e o Conde de Vimioso), toureiros e forcados (o género musical surge também muito associado à prática popular das esperas de toiros) e até os batedores do fado (segundo explica Tinop na obra, bater o fado era uma dança popular dotada de certo erotismo). Tão grande é o inventário, que facilmente o leitor se pode perder nos múltiplos enredos, adornados de adjetivos e outros vocábulos da língua portuguesa quase indecifráveis de tão desconhecidos hoje (pelo menos, para mim), mas tão musicais quanto o tema que inspira a obra.

Uma das principais estórias contadas no livro é a da mítica Maria Severa, de ascendência cigana, filha de uma taberneira, considerada por muitos a fundadora do fado, por se ter destinguido na interpretação de tantos fados lisboetas em muitos botequins e tabernas da capital portuguesa e pela sua história de amor com o Conde de Vimioso, um aristocrata com quem, de entre outros amantes da musa (que se diz ter sido uma prostituta, como tantas outras fadistas da mesma época), ela viveu um conhecido romance, tendo chegado a se amancebar com ele. O conde levava-a às touradas e ela cantava para ele. O crescente interesse da aristocracia pela canção popular e pelos espaços onde esta circulava também é uma pauta explorada pelo autor – tendência que se repetirá, quase um século depois, com a elevação do fado a símbolo nacional pelo Estado Novo de Salazar.

A imagem do fadista é descrita com traços que poderão parecer familiares aos leitores brasileiros: geralmente um boémio, mulherengo, bom de briga tanto de força, quanto de facada. A navalha é um dos seus principais adereços. No fundo, poderíamos estar a falar do sambista malandro carioca, figura simbólica que se populariza no imaginário popular brasileiro, na primeira metade do século XX. Aliás, Tinop faz referência ao fadista capoeira, o fadista do Rio de Janeiro, como faz ao fadista do Porto ou ao estudante de Coimbra, e das particularidades destes em relação ao de Lisboa. As mulheres cantoras de fado eram figuras femininas irreverentes, tal como a Severa, que quase sempre por meio de uma postura de liberdade sexual ou por frequentarem espaços maioritariamente frequentados por homens,  eram consideradas libertinas, mulheres de má vida, algumas também boas de briga e de navalha, que são descritas pelo autor, num tom previsível para um homem (eu diria) escandalizado daquela época, como masculinizadas.

Além de gravuras e imagens referentes a alguns dos personagens descritos no livro, que são intercaladas com o texto, no final temos ainda reservado um espaço para uma extensa lista denominada por Elenco dos Fados, com o principal do cancioneiro conhecido até àquele ano de 1903.

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