Histórias contadas por narradores-protagonistas tendem a aproximar-nos do personagem de um jeito mais íntimo – são quase um convite ao leitor para que passe a pertencer ao enredo. Aqui, no coração do inferno (Editora Patuá, 2016) fez-me sentir no papel de psicanalista de uma jovem de quinze anos que me confidencia um tanto da seu turbulento ambiente de uma pequena cidade de interior, Santana do Mato Verde, com um assustador histórico de violência.

Digamos que a narrativa pode ser observada por dois ângulos complementares: a do universo particular das descobertas irreverentes e confusas da puberdade e a da metáfora precisa de um país que ainda sofre as sequelas de cerca de duas décadas de ditadura militar. De toda a forma, caminhamos junto à narradora, numa trama envolta em mistério e nos rendemos à lógica de uma psique que fervilha de jovialidade – o discurso direto usa e abusa de expressões e vocábulos que denunciam claramente tratar-se de uma adolescente.

Filha de um delegado de polícia transferido para um lugar ‘onde Judas perdeu as duas botas’, ela mora com o pai, a irmã mais velha, a madrasta e uma irmã bebê, fruto do segundo casamento do patriarca. Enquanto a irmã mais velha se rebela o tempo todo contra as arbitrariedades e morais caducas do delegado, a narradora opta pelo silêncio observador e detetivesco. A madrasta representa o personagem-tipo tão comum que é essa vítima mulher, submissa e reprimida pela lógica de poder familiar atribuída ao marido (que, para piorar o nível de compaixão que possamos sentir por ela, é um policial). Finalmente, e não menos importante, devo adiantar que a mãe das filhas mais velhas morreu quando elas eram ainda crianças e a trama parece acontecer no final da década de 80 ou início de 90.

O delegado caduco decide levar um rapaz de quatorze anos acusado de homicídio e canibalismo para dentro de casa, algemado na cozinha, sob o risco de ser linchado pela população fora daquelas quatro paredes, enquanto a Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor não vem buscá-lo. A nossa esperta heroína não entende como é que um garoto da sua idade, de aparência inofensiva, possa ter cometido tamanhas atrocidades e inicia uma ousada aproximação com o prisioneiro. Paralelamente, descobre alguns papéis proibidos, escondidos nas gavetas do chefe de família, e é incomodada por sonhos estranhos, onde surgem o pai e a falecida mãe, cujo nome está inscrito nesses documentos.

O final do livro pode até induzir uma conclusão esperada, mas importantes pontos de interrogação, ainda que secundários, permanecem estrategicamente sem respostas e indiciam que a obra se trata de um primeiro título de uma trilogia.

Esta é uma história sobre mulheres, num palco masculino e violento, em que Micheliny Verunschk, a autora, nos leva a refletir sobre uma democracia jovem em risco de vida, na qual uma moral antiga de velhos costumes ainda impera nas noções básicas de justiça e de relações de poder, onde ‘bandido bom é bandido morto’ e onde tantos nomes de desaparecidos e torturados ainda clamam, mais de trinta anos depois, pela punição de seus algozes – defensores da Pátria Amada.

 

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