O anjo da guarda do vovô, de Jutta Bauer

Morte: taí um assunto tabu de nossa sociedade nos dias de hoje. Evitamos falar sobre ela, ocupando-nos mais e mais com a vida, mas sempre tem uma hora em que ela bate à porta. É um gatinho, uma avó, um amigo. Se mal sabemos como lidar com a morte nós mesmos, como tratar desse assunto com as crianças?

Há quem prefira não tratar: “a criança é tão pequena que nem vai perceber”, o raciocínio é mais ou menos esse. Mas a verdade é que ela percebe. E, diante do não dito, a angústia pode se tornar infinita: se meu avô sumiu de uma hora pra outra, amanhã pode ser minha mãe, minha professora, qualquer um.

Por outro lado, quando tomamos coragem e enfrentamos o assunto, qual não é nossa surpresa ao nos darmos conta de que era muito mais simples do que parecia! No momento da notícia, a criança decerto ficará triste, mas, tal qual um balde que se esvazia, logo depois ela enxuga as lágrimas e vai brincar, leve e pronta pra outra. Mesmo se ainda engatinha na linguagem, ela entenderá o que lhe for dito com uma naturalidade que nos espanta. De verdade mesmo, quem complica somos nós.

Aqui, a literatura mais uma vez pode ser um importante aliado. É claro que nada substitui a conversa franca e direta, um direito da criança de saber o que lhe diz respeito. Mas os livros podem auxiliar e muito o processo de luto, não só da criança, mas dos pais também. Ao dedicar um momento de leitura pra esse tema, a família toda pode elaborar o ocorrido de forma compartilhada e repleta de carinho.

Como dica de leitura, sugiro dois livros: “O guarda-chuva do vovô”, de Carolina Moreyra, com ilustrações do Odilon Moraes (Editora DCL); e “O anjo da guarda do vovô”, de Jutta Bauer (Editora COSACNAIFY). Este último, em especial, é daqueles que me arrepiam: todo o livro é permeado das histórias que o avô, acamado, conta ao seu neto. Durante as aventuras narradas (que vão desde um ganso bravo até um campo de concentração nazista), um anjo da guarda está sempre por perto, protegendo o avô de toda sorte de perigo. O interessante é que o anjo não aparece na narrativa, e sim somente nas ilustrações. Ao terminar de contar suas histórias, o vovô fica “cansado e fecha os olhos”, e o neto então sai de fininho para aproveitar o dia lindo que fazia lá fora. O neto e… o anjo da guarda do vovô.

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