É sabido que a chegada de um bebê provoca toda uma reviravolta familiar: novos afetos, novos espaços, velhos fantasmas. Um luto definitivo da confortável posição de filho; ansiedade e medo da nova posição de pais. Um turbilhão de novos sentimentos invadem à casa, enquanto os pais tentam dar conta de fantasmas que datam de seus próprios nascimentos. Nascer, definitivamente, não é fácil.

Se a nova configuração familiar já é difícil para os pais, o que diremos da criança pequena prestes a ganhar um irmãozinho? Faz pouco tempo ela engatinhava, ainda hoje tateia a linguagem como quem tateia um prato quente demais. E aí, de repente, ela já tem que lidar com temas complexos para os quais mal possui palavras. Da onde vem esse irmão? Da onde eu vim? Por que vou ganhar um irmão se não pedi por isso? A barriga da mãe cresce junto com a ameaça da perda de seu lugar.

Mas com a perda, vêm os ganhos: meu irmãozinho vai ser menino ou menina? Como vai se chamar? Do que vamos brincar? Por um lado, já o primeiro luto: a criança não será mais a majestade única de seu pequeno triângulo amoroso; por outro, imaginem só, um amigo com quem brincar 24 horas por dia!

Como toda nova situação, as ambiguidades estão presentes. Medo e desejo caminham juntos: desejamos o diferente, tememos o diferente. Longe de querer resolver a ambiguidade, acredito que o caminho está sobretudo em sustentá-la. A alegria da chegada do novo irmão tem seu espaço, assim como o ciúmes, o luto e o medo. Não há nada de errado em sentir coisas contraditórias; nossa humanidade também está aí.

Há, porém, artifícios que podem ajudar aos pais a lidar com tais contradições, a fim de dar um contorno às angústias de seu filho. Um potente artifício neste sentido é a literatura. Diversos livros tratam dessa questão de forma lúdica, leve e sensível. Ao mesmo tempo em que a criança se identifica com personagens que passam por situações semelhantes a dela, há um distanciamento que a protege: o personagem, afinal, é de mentirinha e mora dentro das páginas do livro.

Como dica de leitura, indico “Um bebê vem aí”, de John Burningham & Helen Oxenbury (Paz e Terra). Como se trata de um livro de origem inglesa, os autores retrataram o tempo da gravidez através das estações do ano: enquanto as estações mudam – e a barriga da mãe cresce -, a criança tem tempo de elaborar questões que a afligem, de imaginar como será esse irmãozinho ou irmãzinha, de falar de seu ciúmes, assim como de seus desejos:

“Tomara que ele seja um menino, aí a gente pode brincar juntos, brincadeiras de menino, e eu acho que ele devia se chamar Peter como o Homem-Aranha.”

“Será que o bebê vai trabalhar aqui no zoológico um dia, tomando conta dos animais? Aí ele pode ser devorado por um tigre.”

Ao longo de seus questionamentos, a mãe está sempre ao seu lado, acompanhando suas aflições sem repreendê-las ou respondê-las de imediato. Os nove meses da gestação são essenciais para a elaboração dos conflitos, de modo que, quando o irmãozinho finalmente nasce, é assim que a criança conclui para o avô, que a acompanha ao hospital:

“Vovô, o bebê vai ser o nosso bebê. E a gente vai amar muito o bebê, não vai?”

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