O escritor iniciante não deve se preocupar em escrever, ou escrever corretamente, ou em escrever para brilhar. Tudo isso queima – e passa. Tateando às escuras, ele deve se preocupar, apenas, em escrever. Pode parecer fácil, mas é o mais difícil.” – José Castello, in Prosa&Verso, Jornal O Globo, 14.02.2009.

A vocação literária é, sem dúvida, o principal componente que deverá conduzir à escrita profissional. No entanto, com o advento da internet e suas facilidades, todos vêm se tornando escritores. Escritores de blog, escritores de spams, escritores virtuais. Isto, no entanto, deve ser examinado com especial atenção.

Uma coisa é gostar de escrever um diário, para contar a todos os amigos o que tem acontecido na vida recente. Não há mal algum nisso e, talvez, esse texto de blog poderá até mesmo se tornar um livro. Mas não creiamos que esse escritor seja aquilo que se identifica por um escritor profissional.

Uma segunda coisa é ter uma tendência jornalística nata e externar comentários, também em blogs, os acontecimentos recentes que respeitam uma determinada matéria, seja a defesa dos animais, seja moda ou um folhetim sobre as notícias do bairro. Isso, na verdade, não é vocação literária, é vocação jornalística, aqui seja bem entendido.

A vocação literária pode despontar no início da alfabetização, no início da adolescência ou até mesmo na idade adulta ou provecta. Se o vocacionado abraçará, nesses momentos, sua vocação, já é outra história. A opção por caminhar na vida literária pode ser feita de acordo com as conveniências de cada um, certo que cobrará seu preço no futuro. Mas o fato é que, se a tendência tiver se mostrado nestes momentos-chaves do desenvolvimento individual do escritor, aí temos um vocacionado para a causa literária.

Então, como identificar esse chamado?

Todas as pessoas reagem de forma singular aos estímulos externos. Algumas sentem uma determinada urgência em, por exemplo, defender injustiçados, já outras têm inequívoca habilidade na mediação de conflitos, e há ainda aquelas que conseguem escutar problemas alheios, racionalizá-los e resolvê-los. Com facilidade se tornarão advogados, juízes, psicólogos. Isso acontece inicialmente num pequeno círculo, familiar e de amigos, e acaba se transferindo para a vida pública e profissional. Estamos, aqui, falando daquela pessoa que veja a literatura como meio único para o alívio dessa urgência, um contador de histórias, um inventivo criador de histórias diferentes, alguém que privilegie a leitura e a escrita em detrimento de diversos programas alternativos.

Escritor não será, pois, aquele que destina apenas as horas vagas ao exercício do seu prazer. Ao contrário, é aquele que elege como essencial à sua vida o uso de todo seu tempo disponível e prioriza as atividades de leitura e escrita, deixando outras de lado.

Pergunte-se, então: quantas vezes eu deixei de ir à praia, ou a um restaurante, para me dedicar aos livros? Quantas vezes eu me aborreci ao ter um compromisso social ou profissional, e contei os minutos para voltar aos textos? Quantas vezes, num espaço público, tive a urgência de anotar algo num papel para desenvolver mais tarde?

Todas essas respostas – e mais outras, a perguntas que não foram aqui feitas – indicarão a vocação para a profissão de escritor. Não a profissão de professor de literatura, não a profissão de tradutor ou jornalista: a profissão de escritor. E o que se vai fazer enquanto a atividade não gera lucros é outra questão, a ser enfrentada em outro momento.
Bibliografia indicada: – Vargas Llosa, Mario. Cartas a um jovem escritor. Ed. Campus, 2006.

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Paula Cajaty
Escritora, editora, poeta e crítica literária. Nasceu no Rio de Janeiro e publicou "Afrodite in verso" e "Sexo Tempo e Poesia" em 2008 e 2010, além de participações em antologias e coletâneas. Criou o boletim Leituras em 2007 e publicou mais de 154 edições até o início de 2014, quando conheceu a Dani Fernandes.

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