i261677Ela é uma renomada autora do universo literário infanto-juvenil brasileiro, uma contadora de histórias e também tradutora. Formada em Língua e Literatura Francesas, ela fala inglês, francês e alemão. Mineira, que atualmente mora em Munique (Alemanha), Regina Drummond já escreveu diversos livros e alguns desses trabalhos receberam prêmios e destaques importantes, entre eles, quatro selos Acervo Básico e um Altamente Recomendável, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, como autora, e também o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, como editora. Foi coordenadora do Espaço das Atividades Infantis da Bienal Internacional do Livro de São Paulo desde sua inauguração, em 1992, até o Salão Internacional do Livro/99. Há alguns anos que ela vem ainda participando ativamente em projetos como O Escritor na Cidade, Gosto de Ler, O Escritor na Biblioteca, Paixão de Ler e ProLer.

Em um dos seus mais recentes livros, Quando Tudo Muda (Panda Books, 2016), a autora traz a história de uma adolescente que é obrigada a largar a escola e os amigos no Brasil e se mudar para a Alemanha – uma parceria com a ilustradora Shirley Souza. Este é um tema borbulhante e comum a tantas outras crianças e adolescentes, que acabam emigrando por conta da situação profissional dos pais. O Boletim Leituras conversou com Regina Drummond sobre o livro, a sua obra e os desafios para os autores da literatura nacional infanto-juvenil.

 

Qual a inspiração para um dos seus mais recentes livros, Quando Tudo Muda, uma parceria com Shirley Souza?

As pessoas sempre me perguntam como é morar na Alemanha. Foi para responder essa pergunta que escrevi esse livro. Falo principalmente da cidade de Munique, onde moro, e seus arredores, das diferenças e semelhanças com o Brasil, das pessoas, do idioma. Usei um pouco das milhares de histórias que ouvi das au pair, garotas de 18 a 24 anos que vão morar em uma casa de família em um país estrangeiro, por um tempo previamente marcado, para estudar o idioma, e ajudam no serviço doméstico e no trato com as crianças. Tive muitas como colegas durante os cursos de alemão que fiz em Munique, logo que fui morar lá, e conversávamos bastante. Para responder à esta pergunta, usei os verbos na primeira pessoa, porque essa parte eu fiz sozinha. Foi depois que a Shirley entrou na ‘sociedade’.

E como descreve a parceria com Shirley Souza? Este foi o primeiro trabalho juntas?

Shirley e eu já somos amigas há algum tempo. Admiro muito o trabalho dela, gosto do jeito que escreve. Ela conta que foi minha leitora, quer dizer, lia meus livros quando estudante. Ela me convidou para fazer um livro juntas, mas de um jeito diferente de Quando tudo muda: cada uma escrevia dois contos, separadamente, e eles mostravam o nome da autora. O resultado foi Histórias de Lobisomen e Outros Seres da Escuridão, também publicado pela Panda Books, e que mereceu o destaque Acervo Básico, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Escrevi nele um texto que veio a ser a base de Quando tudo muda: a história de uma garota que vai ser au pair em Munique. A Tatiana Fulas, gerente editorial da Panda, gostou dele, mas achou que a garota deveria ter 13 anos, não 18, como no original, e eu me propus a mudar isso. Mas mexer num texto que consideramos pronto é difícil e eu não estava conseguindo. Foi aí que tive a ideia de chamar a Shirley para ser minha parceira. Ela trouxe um olhar diferente para as personagens, ideias novas e um frescor que me encantou.

Como você distinguiria este livro de outros de seus trabalhos anteriores? O que ele traz de novo à sua obra?

Cada livro é diferente, cada livro é um filho, cada um deles me acrescenta e me faz ver o mundo com um novo olhar. Nesse livro, eu quis desmistificar o ‘morar fora do Brasil’, que as pessoas acham que é uma maravilha, desconsiderando o lado negativo: o frio, a neve, as saudades, a solidão, a difícil fase de adaptação etc; e também mostrar uma experiência mais real disso tudo. Muitos livros de intercâmbio cultural que li, por exemplo, me pareceram exagerados nas coisas boas. A realidade é o duro dia a dia, as horas que precisamos viver uma a uma, as dificuldades. Todos esses momentos podem ser cheios de encantamento, sim, mas têm também o lado pesado. A minha obra anterior é mais fantasiosa, escrevo muito sobre seres como fantasmas, bruxas e vampiros. Dessa vez adorei falar de um tema bem real e cheio de situações difíceis, que a personagem principal precisa superar.

Você é uma autora muito importante no universo literário infanto-juvenil, no Brasil. Você acha que as crianças e jovens brasileiros lêem autores nacionais?

Obrigada. Me senti lisonjeada… Quanto à resposta, é claro que sim! E tenho certeza de que os outros autores vão concordar comigo. As escolas estimulam muito essa leitura. Acho isso ótimo. Mas não perco de vista que é importante conhecer o trabalho de todos os bons autores, nacionais e estrangeiros, modernos e antigos. Na verdade, acredito que a literatura nacional vai ficando para trás é quando eles crescem: é o adulto que consome mais literatura estrangeira.

Quais os maiores desafios para os autores desse segmento no Brasil?

Há vários desafios. Em primeiro lugar, conciliar o que é bom para a criança e o jovem, o que é literatura de qualidade, com o que eles gostam, e acima de tudo com o que o mercado acha que eles querem, que é o que vai oferecer a eles. Não tenho nada contra a chamada literatura de entretenimento, muito antes pelo contrário; mas há muito livro solto por aí que não acrescenta nada ao leitor, que não instiga ou questiona, que não faz pensar nem crescer. Outro desafio é a linguagem: ela precisa ser elegante sem ser distante do leitor, atual sem cair no popular, simples sem desvalar para o gramaticalmente errado. E ainda há o tal do ‘politicamente correto’, uma tortura que nos persegue como pesadelo na noite! Em seguida, há os desafios da publicação: nossos índices de leitura ainda são baixos e as editoras precisam ‘peneirar’ tanto que acabam recusando textos ótimos (palavras do pessoal que trabalha com isso). E, se a divulgação não for boa, o livro acaba passando despercebido. Os desafios são imensos! Mas o que nos move é, antes de tudo, a paixão. E, além de se gratificar com pouco, ela ainda é cega para os obstáculos e forte em sua busca. Seguiremos lutando!

Qual a importância que tem um órgão como a AEILIJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil) para o mercado editorial brasileiro?

É enorme. Quando nos une, ela nos torna não apenas mais fortes, mas sobretudo mais visíveis. Juntos, lutamos pelos nossos direitos e, ao mesmo tempo, podemos mostrar uma ‘cara’ mais coesa para o mercado. Ela nos acrescenta.

Ainda vamos ver muitas obras da Regina Drummond publicadas? Quais as perspectivas para um futuro a curto, médio prazo?

Com certeza, sim! Mesmo com a crise que assolou o país neste ano de 2016, tive vários títulos publicados. Tenho obras com contratos assinados, outras sendo avaliadas e algumas em processo de produção. Vale lembrar ainda que sou uma autora muito produtiva. Atualmente, não faço outra coisa na vida além de escrever e divulgar meus livros. Pode contar com muito livro novo meu, sim!

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